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:: Mestre
Divino

Nascido no interior de São Paulo,
Lavínia, é filho de músico caipira e irmãos
seresteiros. Aos quatro anos fazia café misturado
com pinga para servir nas madrugadas aos irmãos e
desde pequeno fazia batucadas nos pratos, sendo
advertido diversas vezes por sua mãe. Não
adiantou... pegava as latas de manteiga com capinhas
de alumínio e as guardava junto com o seu irmão
Wilson (Zé da Véia) e, também bexigas estouradas. Da
lata vazia tirava o fundo , recortando as arestas e
esticando as bexigas de cima para baixo para formar
os seus tambores dos quais tirava os sons. Daí para
frente se dedicou ao samba, tocando todos os
instrumentos dentro de uma batucada.
-"Sou batuqueiro e não ritmista! A diferença entre
ambos está na capacidade de extrair o som dos
instrumentos, porque o batuqueiro integra uma
batucada e toca sem interrupções, extraindo de fato
o som da peça, enquanto o ritmista integra a
bateria, tocando com interrupções e, principalmente,
fazendo o uso dos floreios e artifícios dentro da
bateria para sustentar o padrão. Atualmente, uma
bateria contém aproximadamente 300 ritmistas, mas
nem todos executam os ritmos, portanto, a base da
bateria é quem sustenta e dita o ritmo. É
fundamental a qualidade ao invés de quantidade e
afirmo-lhes que mesmo não sabendo tocar nem um
instrumento, qualquer um, estando ao meu lado, em
trinta minutos aprenderá. Por que? Porque saber
tocar nada mais é do que exercer mentalmente o
ritmo, por conseguinte, trabalhar a coordenação
motora. Todos os padrões e linhas de instrumentos -
17 necessários dentro de uma batucada somente serão
executados se os dominarmos na mente. Assim, se você
não é capaz de fazer o som com a boca, não o fará
com o instrumento. Tornei-me sambista por excelência
porque os meus irmãos foram os meus referenciais e o
maior prêmio no samba é o reconhecimento dos meus
batuqueiros. Iniciei em 1970, na bateria da Vila
Matilde, mas desde a época dos desfiles no
Anhangabaú, São João e Centro já apreciava o
carnaval. Nesse período tocava malacacheta,
atualmente, repenique. Na bateria da Vila Matilde
fui dirigido pelo apitador pai de Albaninho,
falecido dias antes do carnaval. Na ausência do
apitador, cinco batuqueiros foram escolhidos para
assumir o cargo. A escolha foi feita através de um
teste (peneira). Perfilados lado a lado, os cincos
batuqueiros começaram a tocar: o primeiro falhou, o
segundo, o terceiro e o quarto, restando apenas eu.
Em menos de um mês freqüentando a escola,
aproximadamente em vinte dias me tornei o diretor da
batucada.
Minha primeira nota foi (8) oito. Dali em diante foi
sucesso total e emoções contagiantes e
inesquecíveis. Embora tendo vivido diversas emoções,
a maior emoção que vivi no samba foi no carnaval de
1983, ao assumir a bateria do Camisa Verde. Desde a
concentração até a dispersão chorávamos porque eu
olhava nos alambrados os batuqueiros e torcedores da
Vila Matilde fazendo gestos de aclamação para que eu
voltasse à Zona Leste. Foi inevitável, as lágrimas
nos olhos persistiam em cair por todo o percurso da
avenida Tiradentes. Inesquecível!
Entretanto, o começo do trabalho no Camisa Verde não
foi fácil. Na época tínhamos facções dentro da
batucada: a turma do Celsinho, a turma do Zé
Carioca, a turma do Ivan, a turma do Nando, a turma
do Saci, portanto, apenas na base da conversa e,
principalmente mostrando na prática das mudanças
necessárias, foi que consegui aplicar os novos
padrões. Mudamos coisas simples como a altura e
largura dos instrumentos, a afinação caixa e tarol
combinando com o corte, atrelado à combinação ou com
surdo e bumbo, bumbo com bumbo , surdo com surdo ou
surdo com bumbo invertido cada um, resultando em uma
afinação. Mas o padrão, obtivemos das caixas e
taróis e no corte, assim, para um grave e agudo, um
corte. Montamos uma linha de surdo para fazer a
primeira e uma linha de bumbo para dar a resposta.
No caso da primeira tudo bumbo, surdo é só corte e
centralizador. Então temos: primeira e segunda que
são de bumbos e surdos (terceira e centralizador),
onde temos que ter surdo só na terceira, o corte, e
na quarta que será o contra tempo - combinação.
Atentamo-nos ao uso de agogôs, pois são quatro
campanas: dó-ré-mi-fá, usando-os com moderação,
porque dentro de uma batucada não apresenta tanta
utilidade e efeito e, se não bem utilizado, no
momento exato atrapalhará no andamento do conjunto
no ritmo. Costumava tocar os instrumentos com os
batuqueiros, individualmente, fazendo-os cantar
porque o batuqueiro que canta não atravessa.
Dentro de uma batucada as linhas de instrumentos
necessários são: primeira, segunda, terceira (corte)
e quarta (centralizador), caixa e tarol, surdo de
terceira - complemento da pesada, combinação com a
caixa e o tarol, centralizador - contra tempo com a
marcação de primeira, repeniques, tamborins, agogôs,
chocalhos, ganzás, pandeiros, cuícas e pratos. Nesse
período de Barra Funda, conheci o maior sambista de
todos os tempos no Estado de São Paulo, Carlos
Alberto Tobias que, tocava, versava e dançava como
ninguém. Na batucada, Tobias conhecia todos os
instrumentos, entretanto se destacava tocando surdo.
Tive grandes momentos dentro do Camisa Verde e já
presenciei cantores renomados como Zeca Pagodinho,
Reinaldo, Boca Nervosa, Companhia Limitada...
pedindo à diretoria para cantarem sem remuneração na
escola. Considero a escola uma pioneira e
responsável pelo engrandecimento do carnaval , não
somente do carnaval, mas do samba em geral. Deixei o
Camisa porque, ao produzir um LP de samba enredo com
Carlos Alberto Tobias, na publicação da obra,
constatamos que todo o trabalho realizado por nós
teve os méritos dado a um outro produtor, um amigo
do Tuba que não participou do trabalho, lesando a
mim e ao próprio Tobias. E, como havia trabalhado,
fui cobrar uma posição do presidente. Conclusão:
entramos em atrito, e devido a esse fator deixei a
bateria em 1989.
Não tenho mágoas em relação à escola, guardo apenas
as grandes lembranças dos bons momentos que ali eu
vivi. Critico sim, na atualidade, a falta de padrões
dentro das batucadas, pois o que está predominando
são os estilos, e a diferença está em que o padrão
define o ritmo de cada instrumento, definindo a
identidade do ritmo correto, enquanto o estilo é
como a bateria toca, porém, sem uma definição
padronizada dos instrumentos. Ou seja, floreados de
tamborins e conversões que não são tocadas como em
uma batucada. Numa batucada, os instrumentos são
executados por longos tempos, ao contrário das
baterias que não se firmam por mais de dez minutos
tocados sem interrupções nos naipes de tamborins.
Hoje, as escolas de samba têm 98% de foliões e 2% de
sambistas, então, tudo está bom. O samba de SP não
está atrasado se comparado aos outros estados,
porque contamos com excelentes batuqueiros (não
ritmistas), que tocam por horas e não somente vinte
minutos. O grande problema nos dias de hoje é a
falta de padrão, dificultando a distinção entre uma
"batucada" e outra, confundindo bastante por serem
muitos parecidos. Eu tenho seis padrões definidos na
minha cabeça, mas além dos padrões existem outros
fatores que determinam a qualidade de uma batucada,
que são: uso excessivo de nylon e poliéster, não
dando uma boa afinação; a montagem dos instrumentos
- altura e largura, se os instrumentos são redondos,
os mesmos devem ser batidos no centro, pois se
fossem quadrados seriam batidos nas pontas; floreado
de tamborins; afinação dos instrumentos, a
combinação do padrão caixa e tarol; uso inadequado
de agogôs e a falta de couro de bichos nos
revestimentos dos instrumentos. O som extraído
desses instrumentos são superiores aos revestidos
com nylon e poliéster. Enfim, são as mudanças que se
fazem necessárias aos ouvidos e gostos dos novos
foliões.
No mundo do samba conheço diversos mestres de
bateria, assim como diversos ritmistas. Contudo, os
quatro grandes mestres (ou diretores) como eu
prefiro que me definam são: Waldomiro da Mangueira
que, durante trinta anos, manteve o padrão e mesmo
com problemas físicos conseguiu segurar o ritmo;
Mestre André, que também roeu o osso, implantando as
paradinhas e definindo um padrão característico na
batucada da Vila Vintém. Em São Paulo, Mestre
Lagrila por tradição e Ricardão (Mestre Neno), o
segundo pelo trabalho e conhecimento dentro de uma
batucada.
Agradeço a oportunidade e deixo aqui registrado a
seguinte frase: "Água mole em pedra dura tanto bate
até que fura. O tempo é o tempero da solução, nada
como um dia após o outro. E, se um dia eu voltar a
desfilar, nem que seja empurrando alegoria, somente
desfilarei no samba defendendo duas agremiações:
Imperial e Camisa Verde, no mais não me envolverei".
Divino Pecador - Diretor de Bateria
Fonte:
www.camisaverde.net

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